Entrevista realizada em Setembro de 2006 por Gilbert Pytel para Ragga Magazine.

Falando um pouco sobre Double Embrouille, pode apresentar-nos este grupo e fazer uma pequena perspectiva histórica para os novatos?

O grupo é composto pelo Nico, por mim (Dj’s), pelo Chico (seleccionador) e por Bouyax (operador e Dub Master), foi através da rádio que entramos no mundo do Reggae… O Nico e eu começamos por apresentar a emissão “Cool Runnings” na Graffiti FM isto em 1987, a rádio rock e independente de Bordeaux ,era o Júnior, actual patrão da BlackBox 103.7 FM, que animava a emissão do Sábado de manhã “Feeling Black Machine”, e foi através desta que descobrimos o Reggae, e que nos deu a nossa primeira oportunidade encarregando-nos do horário de terça-feira à noite de 22h00 as 00h00. A nossa emissão não era uma emissão de reggae ao vivo, do tipo “Rádio Sound System” era mais uma emissão de informação, com algum jornalismo, novidades.... recebíamos directamente dos Estados Unidos e da Inglaterra, as promoções de editoras como RAS, Live and Learn; Hearthbeat, Fashion Greensleves e de informações reggae locais, nacionais e internacionais (tínhamos assinatura com a Reggae Report…)

Foi nesta época que conhecemos vários artistas jamaicanos, principalmente os que vinham a Bordeaux em tourné… Burning Spear, Pablo Moses, Mutabaruka, Steel Pulse… entre outros… Lembranças inesquecíveis…

Em 1990, encontramos o grupo raggamuffin londrino Big Broad n Massive , vieram passar um mês connosco … uns tipos altamente … alucinaram ao descobrir Bordeaux, Mérignac e a costa atlântica … são aqueles que encontramos na faixa “Les jeunes filles vont nous tuer” de Tonton David no seu 1° álbum “Le blues des Racailles”…

Foi após este encontro que nos concentramos na escrita, em paralelo com a emissão de rádio, e à técnica do toast… Nesta altura Nuttea e Tonton David chegam com musicas como “Un Dj parmi des millions de DJ’s” ou “Peuples du Monde” ou Me Janick com “Ma planéte” … coisas que nos deixavam loucos… Puppa Cláudio, Massilia… Bem nesta altura já ouvíamos Pablo Master “En A, en I, en O ”, Daddy Yod “Elle n’est pas prête” ou ainda Mickey Mossman, a chegada da segunda onda ragga e a explosão do Hip Hop deixou-nos doidos... A continuação era lógica, deixamos tudo, até a emissão de rádio, para nos concentramos no nosso grupo, que chamamos de “Double Embrouille”, em referência a alguns problemas que tínhamos tido, nesta altura, com algumas pessoas do Reggae de Bordeaux, mas também porque era a tradução do grupo do bluesman Stevie Ray Vaughan “Double Trouble” … porque, com razão, pensávamos que ao remixar os nossos sons, ao escrever as nossas letras, etc., etc., éramos bluesmans…

Começamos por cantar sobre vinis, depois optamos pelo CD, para acabar com um sistema Midi Digital16 pistas com um MPC junto a dois 01V, uma coisa louca, uma invenção do nosso dub-master caseiro Bouyax… Double Embrouille andou em turnés cerca de 10 anos, mais de 250 concertos … 10 anos de som, concertos com milhares de lembranças dos quais os memoráveis da tourné com “Third World” …

Podias ter escolhido um pseudónimo em vez do teu nome verdadeiro?

Não, Manuel da Zira é um pseudónimo, é assim que me chamam na minha terra em Portugal. Sou de uma aldeia do Alto-Minho no Norte de Portugal, para distinguir pessoas que têm o mesmo nome, associa-se-lhes o nome da mãe… Da Zira, que é a contracção de “De Alzira”, Alzira que é o nome da minha mãe… Não é uma tradição, propriamente, portuguesa, é a mais uma tradição Occitana, uma vez que encontramos este fenómeno tanto em Provence como no norte da Itália.

Voltando ao título do álbum “Português Suave”. Cantas português em duas músicas. Porquê?

Lógico… Até acho que não tem que chegue no álbum. Esta língua faz parte do meu quotidiano. Cantar em português, tem vários significados… Significa afirmar-se culturalmente, partilhar uma língua, a emoção que ela transporta e as vibrações que contém. Tudo o que sou devo-o a esta cultura que tenho em mim… e que não tenho a intenção de me separar…

A Occitanie está sempre presente nos teus textos?

Sempre… É necessário compreender que é natural para mim, habitante de Gascogne, ainda de origem portuguesa, de me interessar à Occitanie assim como para um antilhense se interessar pela África de a imaginar, de a sublimar, de a procurar… Passa-te pela cabeça gozar dos Abbyssinians ou de Peter Tosh com o pretexto que cantam refrãos das canções em Amharique que no entanto não é uma língua falada na Jamaica… Mas atenção nada de confusões, sou um Occitanista, que não fala a sua língua. Leio-a mas não a falo, de toda a maneira, o Português que eu falo é muito próximo.

Com quem trabalhaste nas diferentes melodias? Para a realização e os coros?

Tenho acesso ao estúdio Bi-Bip Production 24h/24, é lá que componho as melodias e escrevo as letras… Consoante se faz uma nova música, ou faço tudo sozinho, melodias, letras, guitarra, ou faço vir coristas ou amigos… Por exemplo em “Português Suave” trabalhei com Yannique Emonides que fez parte do grupo de Bordeaux ”Some Style” durante muito tempo, ou ainda Sofia Vidal que, como eu é de origem portuguesa e que está mais na onda R’n’B, pessoal do dia a dia: Patrick Mothes, um rapaz do bairro que escreve letras e que passa pelo estúdio e canta-as de vez em quando. Passou no dia da sessão de “Jour de Paye”… mandamo-lo para atrás do micro… Naïma, que faz os coros em “Tout le monde se plaint”, é a mãe da minha filha. Posemo-la no micro quando ela nos vinha… trazer café. Compus de A a Z, as melodias do álbum, à excepção da melodia de “L’Afficheur” criando pelo Chico, que depois do final de Double Embrouille dedicou-se ao baixo, o baixo do acompanhamento de “Raggamuffin Local” (que encontramos na faixa com o mesmo nome assim como em “Aucun Mot” são de Omar Khemry.
Os temas “Os veilhotinhos” “ “Occitanie is the must” são de Bouyax… Quando terminei de gravar as minhas partes e as do meu pessoal, entrego tudo ao Bouyax, que tem a difícil tarefa de “limpar”, editar e de remixar. Acerca do mastering, não é preciso ir muito longe, temos a sorte de ter em Bordeaux um dos melhores estúdios de França, em ocorrência Globe Áudio, logo não há problema

O teu álbum é um pouco o contrário das produções reggae actuais, o que é que isto te diz ?

Não acho que seja o contrário, mas sim, diferente e isto por uma simples razão: comecei a trabalhar no álbum depois que o estúdio Bi-Bip Production tenha conhecido um período de inactividade. Então dei uma volta pelos sons que tocavam facilmente no novo material do estúdio e comecei o meu álbum a partir disso.
A uma dada altura, perguntei-me se não devia incluir uma ou duas melodias actuais para estar mais na tendência do som (há mais de 100 melodias artesanais em stock no Bi-Bip, em que por volta de uma dezena feitas sobre drummings muito mais actuais que os utilizados no álbum). No final não me arrependo… Isso dá ao álbum um lado muito pessoal, o que, aparentemente faz o charme.

Nos teus agradecimentos, encontramos Hailé Selaissie ou Coluche. Nas tuas inspirações musicais, também citas, Ângelo Banduardi ou Francis Cabrel, não é muito comum ?

Sobre Coluche, por tudo o que ele fez e pelo seu humor… Profético… Claro que te lembras da anedota sobre o Papa que tem 10.000 pessoas a vê-lo de graça em Paris quando o Bob Marley no dia a seguir tem 45.000 a pagar. Acaba ao dizer, com a pronuncia parisiense, “Pergunto-me se o reggae não está a ter mais influencia que a liturgia” enorme não ?

Angelo Branduardi… Há artistas que, mal oiço uma nota das suas músicas fazem-me elevar espiritualmente e culturalmente… O Angelo faz parte desses, ao lado de pessoas como Burnig Spear, Pablo Moses, ou num registo diferente Mark Knoppfler ou Francis Cabrel…

Para Cabrel… este homem é uma autentica escola de musica… Toda a gente, normalmente bem constituída, que quer aprender a tocar guitarra, fá-lo ao tocar musicas de Cabrel… Guitarristicamente falando, em termos de acompanhamento, este tipo é um monstro… Nem te falo do seu talento de autor, e compositor e intérprete.
Normalmente havia uma adaptação de uma das suas músicas no álbum… Uma reescrita de uma das suas músicas mais antigas “C’etait l’hiver”… A sua editora recusou-me a sua utilização… Mas estará para ouvir brevemente no meu site.

Hailé Selassié; se hoje sou um homem que anda de pé e direito, devo-o, não totalmente, mas em grande parte, ao reggae e ao trabalho que esta musica fez em mim… Disseram-me que reggae não é obrigatoriamente rasta, o reggae que me tocou e que foi o causador do meu acordar espiritual e cultural foi o reggae rasta sem duvida alguma… e em momento nenhum me posso achar rasta, mas posso gritar bem alto que me alimento da espiritualidade rasta através do reggae desde há quase 20 anos e hoje com o recuo, apercebo-me dos bem-feitos que isto teve na minha vida… Então sou a favor!

Com todo o recuo que podes ter, o que achas do novo cenário reggae dance-hall actual em França? Quais são as evoluções positivas e negativas que pudeste ver depois do teu inicio ?

Não sou o mais adequado para falar nisso mas, tenho vistos coisas muito boas....outras ...menos... muitas produtoras independentes em todo o sentido , festas organizadas por todo o lado, parece-me que está tudo a ir no bom sentido. Senão, ao nível de imagem mediática desta música...é de mas! rabos a mexer, 4x4, imagem de festas, VIP’s, aboreco me destas coisas!!

Como está o cenário reggae de Bordeaux ?

A nível dance hall, há muitas festas em discotecas… Mas admito que nunca arranjei tempo para ir...
falando dos sons, adoro o trabalho do RAS “One Platine Man” Simeon e o seu “I stone Jah Sound”… Pura selecção “Roots n Culture”. Também vi que Maylan, un raggamuffin activo já há anos em Bordeaux, acabou de lançar um álbum, mas ainda não tive a ocasião de o ouvir...
Acerca do Dub, conheces melhor que eu a actualidade d’Improvisator Dub e falando de Roots Reggae, é Seyni que está no top actualmente…Há um novato, Jahko Lion, encontrado por um onde toca o meu amigo Mou7....mas..houve uma época em que tinha 10 grupos que tocavam regularmente, todos os meses ou semanas… Falo-te de New Deal, Some Style Gainde, Rockers Melody, Bongo Fire, Same Blood, Niominka-Bi, claro que é o irmão mais velho de toda a gente, aqui no reggae de Bordeaux…
Aqui passaram-se coisas extraordinárias, na grande época do Jimmy, o bar-concert rock de Bordeaux, um lugar mítico, que infelizmente fechou após a morte de Ramon, o patrão… Nenhum outro sítio conseguiu tomar o lugar do Jimmy no coração das pessoas em Bordeaux … Vários grupos em turné vinham tocar ao Jimmy, mas também grupos locais, o que permitia a toda a gente de se reencontrar, e também a junção entre músicos de acontecer…
É preciso ter conhecido o Reggae em Bordeaux, na época em que Winston McAnuff estava vivo… Vimos Niominka-Bi na época em que Makadoni (o irmão de Winston McAnuff) no drumms e Rudolh Bonito (o guitarrista que tocou no álbum “In the Future” de Pablo Moses), toda a confraria musical se reencontrava nos concertos deles, toda a gente vinha ter a sua lição musical…
Era uma época realmente porreira, muito forte culturalmente, musicalmente e humanistamente. O encerramento do Jimmy, infelizmente, complicou a vida do Reggae em Bordeaux…